Caloteira

CALOTEIRA

Lá estava eu, 11:30 da manhã esperando o ônibus em direção à região Centro-Sul da cidade pra ir pro estágio. Para a minha sorte, estava vazio e tranquilo. Sentei no banco que eu queria (o alto, aquele que a criançada gosta e eu também) e fiquei pensando na vida.

Eis que, na rua Além Paraíba, no ponto em frente ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição dos Pobres, o ônibus para e dois homens entram. Eram fiscais. Eles começam a discutir com um velhinho que acabou esquecendo sua documentação para comprovar que era idoso e não precisava pagar passagem. A aparência não negava: cabelos brancos, muitas rugas e uma fala característica de mineiro idoso.

No banco oposto, uma mulher se escondia atrás de uma Bíblia. Rechonchuda, não muito alta, as raízes totalmente grisalhas, porém o resto do cabelo parecia um castanho aloirado/acobreado.

“Já que estão cobrando de mim o documento, cobrem dela também!” — reclama o senhor, enquanto os outros passageiros, incluindo eu, assistem apreensivos e curiosos a cena.

No fim das contas, os fiscais desceram, o velhinho ficou e a mulher também. Segue a viagem.

Tudo parece estar tranquilo, até que…

“CALOTEIRA!”

Um homem jovem, aparentemente com trinta e cinco anos, berra no ônibus, não muito longe de mim. Moreno e com voz levemente rouca, ele brada sem pestanejar:

“CALOTEIRA! VOCÊ VIVE DANDO O CALOTE PRA NÃO PAGAR PASSAGEM!”

Os passageiros arregalaram os olhos. No fundo, todos esperando o circo pegar fogo.

“PEGO ÔNIBUS COM VOCÊ DIRETO! TODA VEZ É ISSO! VOCÊ FINGE QUE É IDOSA PRA NÃO PAGAR PASSAGEM!”

A mulher, que até então tinha ficado quieta, começa a berrar:

“VAI CAÇAR O QUE FAZER, SEU DESOCUPADO, DESEMPREGADO!”

“EU NÃO SOU DESEMPREGADO! MAS É MELHOR DO QUE SER CALOTEIRO!”

O motorista e o cobrador tentam segurar o riso a todo custo. Os passageiros, idem. Mas daí pra frente, as provocações são impagáveis:

“VOCÊ NÃO ME CONHECE!”

“TE CONHEÇO SIM! TE CONHEÇO DESDE A FUNDAÇÃO DO CEMITÉRIO DO BONFIM! DESDE QUE VOCÊ COMEÇOU A FAZER XIXI SENTADA NO VASO! BARRAQUEIRA! CALOTEIRA!”

“EU SOU BARRAQUEIRA SIM, MAS CALOTEIRA NÃO!”

A confusão se instaurou. Da Além Paraíba até a avenida Afonso Pena, mais precisamente nos Correios, uma gritaria sem fim, acompanhada de gargalhadas intensas. Passageiros não queriam descer de jeito nenhum, só pra ver até onde as provocações iriam chegar.

“VAI TIRAR TERRA NO BONFIM! APROVEITA E SE ENTERRA LÁ! IDOSA DE VINTE!”

Quem entrou no ônibus depois do começo da briga não entendeu nada. Mas assim que perceberam o que estava acontecendo, começavam a rir também. Tinha gente, literalmente, chorando de rir.

“ME DEIXA EM PAZ!” — berrava a mulher

O homem, com sarcasmo, gritava:

“TE AMO, MEU AMOR! MEU ANJINHO!”

A cada berro dela, ele respondia com coisas do tipo.

Ela pede o ônibus para parar e acaba pagando a passagem. Assim que desce, o homem coloca a cabeça pra fora da janela e grita:

“TCHAU, AMOR! APROVEITA, TOMA VERGONHA NA CARA E DEIXA DE SER CALOTEIRA!”

A mulher dá aquele ‘sorriso amarelo’. Pude ver seu rosto mais claramente. Realmente nova, parecia ter por volta de quarenta anos. As pessoas que estavam esperando o ônibus no ponto em que ela desceu olharam a cena com cara de constrangimento.

Depois da briga, o homem contou que mulher é vizinha de uma parente dele e que todo dia ela almoça no centro da cidade. Há tempos, segundo ele, ela finge que é idosa ou que está doente para não pagar a passagem de ônibus. “Uma vez, ela fingiu que estava doente e acabou tirando uma grávida do lugar reservado. Assim que vi que ela tinha pegado esse ônibus, tive certeza do que fazer”.

Depois disso, ele se levanta e começa a imitá-la com poses e caretas, que arrancaram tantas gargalhadas de todos, que de fora do ônibus foi possível ouvi-las. Um funcionário de uma desentupidora, na van ao lado, olhou com incredulidade para o ônibus. Deve ter pensado que éramos todos malucos, rindo no ônibus como se fôssemos amigos de infância, sendo que nunca nos vimos na vida.

Depois que desci do ônibus, fiquei com uma vontade danada de escrever sobre isso. Foi hilário e ao mesmo tempo reflexivo. Até quando o jeitinho brasileiro vai ser usado para tirar vantagem? Essa é uma pergunta ainda sem resposta, mas uma coisa é certa: “depois dessa vergonha, ela não vai pegar o ônibus nesse horário amanhã”.

Bruna Rezende

Escritora e Jornalista

@brunarezendejor

5 visualizações

Lesto Editora

CNPJ 32.436.882/0001-29

Rua dos Narcisos, 108 - sala 02