Anjos cotidianos

Sabe aquelas pessoas que a gente conhece nas andanças na vida e nos fazem um bem danado apenas com uma conversa? Foi o que aconteceu comigo hoje.


Lá estava eu com minha amiga, esperando o ônibus para ir para o estágio quando chega uma senhora muito bem apessoada, de óculos escuros, cabelos castanhos e com uma serenidade louvável. Ela veio conversar comigo e com minha amiga, assim que nos ouviu falar sobre Bono, meu gatinho de estimação. Com alegria, ela disse que um gato de sua parente havia se apegado a ela. A partir daí, os hipertextos cotidianos foram se entrelaçando. Um assunto foi levando a outro. Do gato, falamos de viagens pelo mundo, coisa que ela já tinha feito aos montes. Descreveu paisagens e me fez viajar sem sair do lugar. De viagens, falamos de faculdade, a que eu estou finalizando esse ano. Parecia que éramos amigas há anos! O ônibus chegou e, por sorte, eu e a senhora fomos no mesmo veículo. Minha amiga não teve a mesma sorte, e ficou no ponto.


Dentro do ônibus, sentamos lado a lado. Fomos trocando dicas de livros, ela me aconselhou sobre a vida e me contou sobre a dela. Dona Magdalena vai fazer oitenta anos, mas honestamente, parece menos. Sua simpatia a rejuvenesce. Se casou com um homem divorciado quando era mais nova. Na época, o divórcio era um ultraje. O relacionamento, no entanto, deu certo. Dele, nasceram quatro filhos, que consequentemente, lhe deram oito netos. Orgulhosa, ela diz que seus filhos são esforçados e que conseguiram méritos importantes. Um é arquiteto, dois são médicos e um pesquisador, que inclusive, ganhou prêmios no exterior.


Falei da minha vida também, dos meus planos para o futuro e do meu amor pelo rádio, veículo no qual sonho em trabalhar um dia. Recebi palavras de incentivo e filosofias de vida: “Não subestime o seu valor, menina! Você teve oportunidades graças ao seu próprio esforço. Vejo que você é uma moça muito estudiosa. Queria ter uma neta como você! Infelizmente, uma de minhas netas não se esforça. Ela já tem tudo nas mãos e não valoriza. Fico triste com isso, mas acredito que ela vai mudar o pensamento dela.”.


Fiquei lisonjeada pelo elogio e triste pela constatação. Infelizmente, minhas avós faleceram antes do meu nascimento. Não tive as alegrias de ter uma avó na minha vida. Fiquei comovida com o desabafo e ofereci palavras de conforto. Ela também compartilhou sua sabedoria: “Não dependa mesmo de homem. Muitas deixam de viver a vida, abrem mão de tudo para ficarem com o marido, e esquecem delas mesmas. Continue trilhando seu caminho!”


Nos despedimos desejando encontrar uma à outra nos caminhos da vida. Tomara mesmo! Fui para o estágio com a alma tranquila e feliz. A gente encontra de vez em quando esses anjos cotidianos no caminho que nos ajudam com palavras, ações ou os dois ao mesmo tempo. Não sei se encontrarei dona Magdalena no futuro, mas com certeza ela ocupou um pedacinho de mim apenas com uma conversa.


Bruna Rezende

Escritora e Jornalista

@brunarezendejor



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